Quando dizes a alguém que tens perturbação bipolar, é comum veres um ligeiro recuo no olhar do outro. Fomos ensinados pelo cinema e pelo sensacionalismo a associar esta condição a uma instabilidade perigosa, como se fôssemos uma bomba prestes a explodir. É o velho desconhecimento disfarçado de opinião. A realidade, porém, é bem mais silenciosa, e muito mais vulnerável. A perturbação bipolar não é sinónimo de perigo para os outros.
Estudos epidemiológicos indicam que, quando existe tratamento adequado, a maioria das pessoas com perturbação bipolar não apresenta maior risco de violência do que a população geral. Quando há agressividade, ela está frequentemente associada a fatores externos, como o consumo de substâncias, que podem afetar qualquer pessoa.
Pelo contrário, vários estudos indicam que pessoas com doença mental grave podem ter risco significativamente maior de vitimização do que de a praticarem. O estigma pinta-nos como agressores, quando tantas vezes ocupamos o lugar de maior fragilidade.
Em Portugal, várias associações trabalham para que a comunicação social deixe de usar a doença como sinónimo de caos. Cada manchete alarmista levanta um muro de medo, e o medo alimenta o estigma. Enquanto o mundo se preocupa com um “perigo” imaginário, a verdadeira ameaça passa despercebida: o suicídio. Esta é a batalha real.
Estima-se que, em ausência de tratamento adequado, uma proporção significativa das pessoas possa enfrentar risco suicidário ao longo da vida. A dor de uma fase depressiva profunda, marcada por inutilidade e exaustão, é o risco que verdadeiramente precisamos de enfrentar.
É urgente mudar a narrativa. Não somos um aviso de perigo. Somos pessoas a atravessar tempestades internas que exigem tratamento, compreensão e responsabilidade coletiva. Falar, escrever e esclarecer são atos de resistência. O que precisa de ser eliminado é o preconceito, nunca a nossa dignidade.
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