Falar de medicação psiquiátrica é entrar num campo minado de preconceitos. Para uns, o comprimido é uma “muleta”, para outros, um “veneno” que apaga a alma. No meio deste ruído, a minha verdade é simples: a medicação é uma ferramenta essencial, mas não é a história toda.
No meu percurso ouvi de tudo: que ficaria dependente, que perderia a personalidade. No início, essas frases ecoavam dentro de mim. Tinha medo de deixar de ser quem sou ou de nunca mais conseguir viver sem aquele apoio diário. Com o tempo, e com acompanhamento médico consistente, aprendi a separar o medo da realidade.
Estabilizadores de humor e antidepressivos não são substâncias de abuso. Não provocam dependência química como muitas vezes se imagina. Existe, sim, necessidade de continuidade, tal como acontece na diabetes ou na hipertensão. No meu caso, seguir a prescrição não é vício, é responsabilidade.
Também temi perder a minha identidade. Hoje sei que aconteceu precisamente o contrário. Ao reduzir as oscilações extremas, a medicação criou espaço para que o meu “eu” se tornasse estável. Continuo a ser eu, apenas com os pés mais firmes.
Isso não significa que tenha sido fácil. Houve sonolência, alterações de peso, dias de frustração. Ajustar doses, análises e exames frequentes, procurar a combinação certa faz parte do processo. É um trabalho de precisão entre médico e paciente.
Muitos encaram o tratamento prolongado como derrota. Eu vejo-o como cuidado. Se precisar de medicação para viver com equilíbrio, que assim seja. A ciência confirma aquilo que vivi: quando aliada à psicoterapia, a medicação reduz recaídas e devolve qualidade de vida.
Cada comprimido que tomo não é sinal de fraqueza. É compromisso comigo próprio.
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